Escovas

Erica Franquilino

Relacionamento sério

Aspectos legais

Soluções da indústria

Edição Temática Digital - Setembro de 2020 - Nº 54 - Ano 15

 

 

Relacionamento sério


Produtos para a transformação dos fios sempre tiveram relevância no país com a maior variedade de tipos de cabelo no mundo, segundo o blog “Segredos de salão”, da L’Oréal Professionnel. Com procedimento diferenciado ante as conhecidas formas de alisamento, a escova progressiva virou febre no início dos anos 2000 e passou por evoluções na última década, ganhando novos ingredientes e atributos – de controle do frizz ao liso impecável.


Apesar da forte valorização dos cabelos naturais, ela mantém espaço no mercado, um público fiel e imagem dissociada dos malefícios acarretados pelas elevadas concentrações de formaldeído (ou formol).


A escova progressiva é uma invenção brasileira que chegou ao mercado de transformação capilar no final da década de 1990. A técnica foi desenvolvida para mudar a forma e diminuir o volume dos fios, com base na aplicação de aminoácidos e queratina, aliada ao processo térmico (secador e chapinha).


A utilização do formol elevou a popularidade do procedimento a outro patamar, em razão dos resultados obtidos: alisamento satisfatório na primeira aplicação, com fios maleáveis e brilhantes.


A legislação sanitária permite o uso do formol em produtos cosméticos nas funções de conservante (limite máximo de 0,2%) e de agente endurecedor de unhas (limite máximo de 5%). Em concentrações inadequadas – como no início dos anos 2000, quando elas chegaram a 20% em escovas progressivas –, o formaldeído pode colocar em risco a saúde do cabeleireiro e do cliente.


Segundo a Anvisa, a exposição frequente ou prolongada ao formol pode causar hipersensibilidade, debilitação da visão, edema pulmonar e aumento do fígado, dentre outros problemas.


Clientes relatavam queixas como dores de cabeça e garganta, irritações na boca, nos olhos e no nariz, queimaduras no couro cabeludo e dificuldade para respirar. A alta concentração da substância também facilita o mecanismo de ruptura do fio, devido à redução da elasticidade da fibra. Em síntese, o calor da chapinha promove uma ação de termofusão entre o formaldeído e a queratina, formando uma estrutura “plastificada”. Após sucessivos procedimentos, os fios tornam-se quebradiços e ressecados.


A indústria buscou alternativas para a substituição do formol, como os produtos à base de carbocisteína e ácido glioxílico. Entraram em cena ingredientes coadjuvantes como proteínas, silicones, óleos e vitaminas. Chegaram ao mercado escovas progressivas com apelos diversificados, como escova inteligente, de verniz, de mel, marroquina, de chocolate...


São produtos com o mesmo mecanismo de ação, mas que proporcionam diferentes intensidades de alisamento – dependendo da composição e do tipo de cabelo –, sempre com destaque para a ausência de formol na formulação. O limite de temperatura das chapinhas também avançou, passando de 160ºC para até 230ºC.

 

Aspectos legais


Os sistemas de alisamento disponíveis no mercado podem ser alcalinos (ou básicos) e ácidos. Os alcalinos normalmente são formulados com hidróxido de sódio, tioglicolato e guanidina, que apresentam níveis diferentes de eficiência e possíveis danos aos cabelos. As escovas progressivas estão no grupo dos ácidos.


A farmacêutica Ana Carolina Ribeiro, vice-presidente técnica da Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC), explica que não existe uma regulamentação específica para o termo “escova progressiva”. “Portanto, o mecanismo de ação do produto dependerá dos ativos presentes nas formulações. Vale ressaltar que a Anvisa não reconhece nenhum deles como alisante”, diz. De forma geral, as escovas progressivas trazem a combinação de ácido glioxílico e carbocisteína.


“O procedimento combina o uso de uma emulsão condicionante contendo ácido glioxílico ao uso da prancha térmica. Alguns estudos demonstram que o ácido glioxílico provoca rearranjos conformacionais, que ocorrem principalmente no interior da fibra capilar, acarretando mudanças no aminoácido tirosina e nas ligações de hidrogênio. Não há confirmação de que ocorra clivagem entre as ligações dissulfídicas”, menciona. “A carbocisteína quebra a ligação dissulfídica de forma simétrica, levando à formação de cisteína e até de ácido cisteico”, completa.


Em 27 de julho deste ano, foi publicada a RDC 409, que dispõe sobre procedimentos e requisitos para a regularização de produtos cosméticos para alisar ou ondular os cabelos, e a Instrução Normativa 64, que define a lista de ativos permitidos em produtos cosméticos para alisar ou ondular os cabelos.


Na IN 64 permaneceram aprovados os ativos alisantes capilares já previstos na RDC N° 3, de 20 de Janeiro de 2012: ácido tioglicólico e seus sais, ésteres do ácido tioglicólico, hidróxido de sódio ou potássio, hidróxido de lítio, hidróxido de cálcio, sulfitos e bissulfitos inorgânicos.


“A IN enfatiza que não estão aprovados para uso em produtos alisantes ou ondulantes capilares os ativos de denominação INCI Cysteamine HCL, Cysteine HCL, Glyoxyloyl Hydrolyzed Wheat Protein/Sericin, Pyrogallol, a combinação dos ativos Glyoxyloyl Carbocysteine e Glyoxyloyl Keratin Aminoacids, Glyoxylic Acid e outros ativos ainda não previstos na ‘Lista de ativos permitidos em produtos cosméticos para alisar ou ondular os cabelos’. Alguns desses ativos têm avaliação de segurança em andamento e, portanto, serão reavaliados pela Anvisa”, comenta.


No que diz respeito à RDC 409, as principais alterações são referentes à definição dos produtos “que modificam a estrutura química capilar para alisar, reduzir o volume ou ondular os cabelos com duração do efeito após enxágue, bem como no método empregado nos testes apresentados para fins de aprovação de novos ativos alisantes ou ondulantes ou para fins de registro do produto final, que deve satisfazer métodos validados”, diz Ana Carolina.


No tocante à segurança, o fabricante deve apresentar informações como: a faixa de pH e teor(es) do(s) ingrediente(s) ativo(s) do produto acabado, comprovação de que não são corrosivos para a pele e avaliação de irritação cutânea (primária e acumulada), dentre outras.


“[A RDC 409] determina ainda que os limites máximo e mínimo de concentração de ingrediente(s) ativo(s) no produto acabado não poderão ter valores que representem variação superior a 10% em relação à concentração do(s) ingrediente(s) ativo(s) declarada na fórmula do produto”, informa. A rotulagem dos produtos terá de declarar obrigatoriamente, em negrito e caixa alta, o INCI name dos ativos.


Um dos pontos relevantes e polêmicos relacionados ao mercado de escovas progressivas no Brasil é o uso do ácido glioxílico – cuja utilização como alisante só é permitida no país em associação com a carbocisteína.


“O mecanismo de ação do ácido glioxílico e/ou outros ácidos acontece pelo meio reacional ácido, que provoca alterações químicas significativas na estrutura dos aminoácidos, pela reação entre o radical aldeídico com os grupamentos amínicos e as pontes dissulfeto. O radical ácido também reage com os grupamentos amínicos e pontes dissulfeto, que, após enxágue e associado ao calor, origina uma estrutura bio-polimerizada de característica hidrofóbica, conferindo o efeito de alisamento”, descreve Adriano Pinheiro, diretor-executivo da Kosmoscience.


Pinheiro é um dos autores do estudo Spectroscopic analysis of microstructure and protein degradation of human hair caused by new hair straightening systems, apresentado na 22ª edição da Conferência Internacional da IFSCC, realizada no Rio de Janeiro, em 2013. “O estudo confirmou que a aplicação do ácido glioxílico provoca menos danos à fibra capilar quando comparada aos alisantes alcalinos convencionais”, menciona.


O mesmo estudo demonstrou que até cinco aplicações sucessivas do ácido glioxílico não causaram redução significativa da tensão mecânica da fibra capilar. “Quando comparado aos alisantes convencionais, o alisamento com ácido causou menor intensidade de danos estruturais”, acrescenta.


Em setembro de 2014, a Comissão Europeia incluiu as funções de antiestático e de alisante à definição técnica do ácido glioxílico – antes descrito apenas como tamponante. No Brasil, o uso do ingrediente já havia sido proibido pela Anvisa em produtos com ação alisante e/ou submetidos a tratamento térmico em abril do mesmo ano.


A polêmica em relação ao ácido glioxílico diz respeito à liberação de formaldeído quando este é submetido a altas temperaturas. “É importante reforçar que são traços de formaldeído oriundos da decomposição do ácido glioxílico gerados durante a aplicação do processamento térmico. [A liberação] ocasiona concentrações abaixo dos limites de tolerância estabelecidos pelas instituições American Conference of Governmental Industrial Hygienists (ACGIH), National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH) e Oregon Occupational Safety and Health Administration (OSHA)”, afirma Pinheiro.


“A concentração do ácido glioxílico (normalmente 15% em ativo) contido nos produtos cosméticos é consumida durante o processo reacional de alisamento. A presença de um residual após o enxágue, que se decompõe durante a etapa de aquecimento, gera traços de formaldeído que não acarretam impactos toxicológicos significativos”, ele acrescenta.


Pinheiro também destaca “um ponto muito sensível” relacionado ao certificado de qualidade do ácido glioxílico. “Trata-se da impureza denominada glioxal. Segundo a RDC n° 3, de 18 de Janeiro de 2012, o máximo permitido é de 100 ppm ou 100 mg/k, e nenhum fornecedor no Brasil apresentou à Anvisa um certificado de atendimento a este requisito”, aponta.


Para o químico, há perspectiva de regularização da substância para uso em escovas progressivas no país. “É notória a evolução tecnológica da aplicação desta nova classe de alisantes ácidos funcionais. Esse avanço tem apresentado resultados superiores em relação aos alisantes clássicos, com pH alcalino. São destaques a preservação da propriedade mecânica pela formação de ligações covalentes cruzadas e a manutenção do efeito alisante de característica hidrofóbica, que preserva o efeito liso por mais tempo”, salienta.


“Para que as dúvidas ainda persistentes sobre a toxicidade dos vapores gerados durante o processo de aplicação sejam esclarecidas e sua inocuidade claramente comprovada, é preciso existir um fabricante de ácido glioxílico que consiga fornecer um produto com baixa impureza em relação ao glioxal”, conclui.

 

Soluções da indústria


A Avlon oferece uma linha específica para escovas progressivas: a Überliss, comercializada globalmente. “A Überliss foi uma das marcas pioneiras para esse segmento no Brasil, desenvolvida em 2010, em parceria com nosso premiado laboratório de Chicago, nos Estados Unidos. A marca conta com suporte educacional garantido e laudo de conformidade emitido pelo Bureau Veritas, líder mundial na avaliação de conformidade e certificação”, comenta Leonardo Brandão, coordenador de marketing da Avlon do Brasil.


A Überliss é composta por um shampoo pré-escova progressiva, com queratina hidrolisada e proteína do arroz; emulsão alisante Fiber Restructure; a Nutritive Mask, que repara as áreas enfraquecidas, fortalecendo a fibra e reforçando a elasticidade dos fios; e o Frizz Elixir, spray 2 em 1 que confere proteção térmica e ação antiumidade.


A família Überliss também abrange a Hydrating Collection, com shampoo, condicionador, máscara e fi nalizador para a manutenção do cabelo após o procedimento. Em maio deste ano, foram lançados dois novos itens de finalização: Überliss Smoothing RituOil e Überliss Smoothing Leave-In.


O primeiro traz a mistura dos óleos de orquídea e argan para conferir brilho e maciez aos fios. O produto sela as cutículas capilares, evita a perda de umidade e ajuda a minimizar os danos térmicos e a formação de pontas duplas, revitalizando e restaurando a elasticidade das fibras do cabelo.


O Überliss Smoothing Leave-in é um produto termoativado enriquecido com geleia real, extrato de frutas e queratina, que ajuda a selar as cutículas, reforçar a elasticidade e devolver nutrientes perdidos progressivamente em cabelos processados com escovas ácidas.


Para Brandão, o mercado de escovas progressivas sempre foi polêmico e “difícil de trabalhar”. “Há muitas inconformidades de produtos e, principalmente, falta de respeito com o profissional cabeleireiro. Existem produtos sem registro na Anvisa ou com notificação na categoria errada, induzindo o stylist ao erro”, afirma. No entanto, ele acredita na continuidade de uma “seleção natural do que é bom ou não pelo próprio cabeleireiro”.


O Keeping Liss 3 em 1, da Lowell, é um alisamento progressivo que proporciona redução de volume e disciplina os fios. “É uma tecnologia exclusiva para termo realinhamento capilar de fios rebeldes e volumosos. Trata-se de um sistema potente à base de amidas ácidas derivadas dos aminoácidos da queratina, associadas à cisteína biofuncionalizada. Essa tecnologia proporciona excelente ação antifrizz, redução do volume, alteração gradual e progressiva da estrutura de todos os tipos de cabelos, movimento natural, brilho, maciez e efeito nutri-selante”, diz Eduardo Borges, gestor de educação da Lowell Cosméticos. A formulação traz ainda um blend de óleos vegetais, manga e manteiga de cacau.


No que diz respeito ao mecanismo de ação, ele explica que a amida ácida enfraquece as ligações hidrogeniônicas e salinas do cabelo, “assim como, teoricamente, permite a interconvenção das ligações cisteínicas da superfície da fibra capilar”. “A amida ácida catalisada com o calor do secador e da chapinha abre a cadeia peptídica da proteína dos fios e se complexa com ela, formando pontes temporárias e transformando o cabelo. Cada vez que o cabelo é processado, há um aumento na quantidade dessas pontes, por isso o processo é progressivo”, completa.


Borges menciona a tendência de retorno ao natural e de valorização dos cachos, mas acredita que o número de pessoas que buscam disciplinar os fios ainda é grande e crescente. “Atualmente os maiores desejos são produtos com tecnologia eficaz e sem ativos agressivos, como o formol. O público em geral tem buscado qualidade de vida, o que também significa ter mais praticidade com os cabelos”, comenta.


“Acredito na tendência dos alisamentos formulados com bases ácidas e que não ofereçam riscos à saúde; dos que permitam associação de matérias-primas coadjuvantes para a obtenção de um liso perfeito; e dos ativos que possibilitem o tratamento da fibra. Devem surgir mais produtos formulados com biotecnologia para preservar a integridade e a hidratação do fio, o que irá minimizar a alteração da estrutura de elementos básicos do fio”, acrescenta.

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As escovas progressivas, assim como outros procedimentos capilares que utilizam o calor, ajudam a modelar, mas podem causar danos aos cabelos. “As altas temperaturas de secadores (e principalmente das chapinhas) danificam a estrutura interna dos fios e o córtex, podendo desnaturar a queratina, proteína responsável pelas propriedades mecânicas do fio, como elasticidade e resistência”, ressalta Tereza Peranovich Victorio, gerente técnica da Dinaco.


Para minimizar esses danos, Tereza menciona as propriedades dos poliquatérnios, cujo alto peso molecular confere maior substantividade aos fios, protegendo-os de temperaturas de até 230°C. “O Merquat 2001, exclusividade da Lubrizol Life Sciences distribuído no Brasil pela Dinaco, oferece como diferencial sua versatilidade: é um poliquatérnio com amplo espectro de pH, compatível com pH de 3 a 11; formador de filme e que carreia óleos e silicones”, cita.


Ela reforça que, além de ser um “curinga” no processo de produção, o produto permite o uso do claim “vegano”, uma vez que não tem origem animal e não é testado em animais. “A preocupação com o meio-ambiente é uma das macrotendências mais fortes entre os consumidores. Dentre os lançamentos de produtos capilares no período de junho de 2019 a junho de 2020, o claim botânico/herbóreo foi o mais frequente, segundo uma pesquisa feita pela Dinaco na base de dados de novos produtos globais da Mintel”, aponta.


O Maxiliss é um ativo 100% vegetal composto por papiro, substância rica em glicoproteínas que estabilizam as cargas das fibras capilares, eliminando o frizz e mantendo os fios lisos por mais tempo. A composição do ativo também traz estévia, que colabora para a hidratação do couro cabeludo e das fibras capilares.


“Uma vantagem para as empresas que adotam o Maxiliss é sua flexibilidade para compor linhas de produtos. Ele contribui para a duração do liso e tem efeito similar ao modelar cachos. É um ativo que permite atender diferentes segmentos de mercado: pessoas que investem em um liso de longa duração e as que optaram pela transição capilar”, completa.


A Volp também oferece soluções para o mercado de escovas, como o ativo vegano JabuticaBelle, da parceira suíça Mibelle Biochemistry. “A sinergia da jabuticaba com a goma tara, de origem peruana, resulta em um filme respirável, aumentando o brilho no cabelo e acalmando a vermelhidão no couro cabeludo”, cita Rafael Mancini, gerente de marketing da Volp.


Além da sensibilização, o ressecamento é uma das queixas mais comuns no pós-progressiva. O Mackaderm LIA, da Solvay, “é a melhor escolha de matéria-prima emoliente como alternativa ao silicone”. Com origem vegetal, ele promove maciez da raiz às pontas, proporcionando leveza, baixo efeito build-up e balanço equilibrado entre condicionamento e limpeza.


“A atualidade nos mostra a importância da preservação/conservação de tudo ao nosso redor, inclusive dos produtos cosméticos de nosso uso diário, que muitas vezes ficam expostos. Para isso apresentamos uma linha completa de conservantes da Sharon Laboratories, multinacional com mais de 40 anos no mercado”, comenta.


A linha Sharomix Amplify traz o conceito “menos é mais”. “Ela oferece menor utilização e máxima proteção e segurança, por ser uma linha de conservantes de amplo espectro. Além de maior aceitação, por ser livre de parabenos, isotiazolinonas e doadores de formaldeídos, ela é compatível com formulações catiônicas e aniônicas e proporciona conservação em baixas concentrações de uso”, informa.

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